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- Por favor, aguarde sua vez e não ultrapasse a linha amarela assim como todos os outros.
- Não se lembras de mim?
- Não.
- Não é possível que não me reconheces! Sou um grande amigo seu.
- Aqui você é como todos os outros. Não há distinção. E na verdade, não me recordo a seu respeito.
- Como não? Já disse que somos íntimos, verdadeiros amigos.
- De qualquer forma aguarde sua vez.
- Não acredito que não se lembra de mim. Não se lembras do serviço que prestei, dos sonhos que tivemos, das lutas que enfrentei? Por você eu me sacrifiquei e não posso ser tratado como um qualquer. O que adiantou eu ter vivido pela fé?
- Porque eu me lembraria de você? Pelas obras de suas mãos? Pelo ser bem sucedido que foste? Ou pelo vazio que carregavas no coração?
- Pela minha fidelidade.
- Religiosidade, melhor dizer. Não me engane. Esse tempo todo você não pensou em ninguém além de você. Você foi frio, calculista e distante. Desculpe, não tenho como te reconhecer.
- Não acredito que perdi anos da minha vida.
- Mais um motivo pra não me recordar. Você esteve ao meu lado sempre pensando nas coisas que estava perdendo, e nunca nas que poderia ganhar.
- Não, eu estive ao seu lado por amor.
- Amor? Que amor é esse que nunca se compadeceu? Seu amor nunca me foi acessível. Nunca foi demonstrado, compartilhado. Assim como os seus dons, deve ter ficado o tempo todo enterrado.
- Dons enterrados? E os sinais que fiz? Eu fui usado.
- Usado como a mula de Balaão, pra que se cumprissem os desejos do meu coração.
- Mas eu me esforcei para ser parecido com você.
- Tudo bem, conheci suas obras, mas não vi dignidade nelas. Sei que tens nome de quem vive, mas, na verdade, és morto. Infelizmente não és frio, nem quente. És morno.
- E os frutos que gerei?
- Não pode a árvore boa dar maus frutos; nem a árvore má dar frutos bons. Toda árvore que não dá bons frutos deve ser cortada e lançada no fogo. Lembre-se da estória do trigo e do joio.
- Mas profetizei em Seu nome. Expulsei demônios, fiz maravilhas.
- Nunca o conheci. E nunca me conheceste. Não foste o filho que queria.
- Dei pães aos famintos...
- Não torne as coisas ainda piores. Inúmeras vezes te orientei. Mostrei meus caminhos, minhas vontades. Eu alertei, revelei toda a verdade. Você foi fogo estranho. Viveu como queria. Na contramão do plano que em você eu realizaria. Querido, não há mais tempo. Esse não é o momento. Não há espaço para arrependimento. É com lágrimas nos olhos que não deixo vir a mim, pois foi por você que morri. Queria que estivesse comigo na eternidade. Foi pra isso que jorrei sangue de verdade. Mas veja você mesmo: seu nome não está escrito no livro. Não tens passaporte, não é esse seu destino. Não é esse o seu caminho.
- Mas, Senhor...
- Por favor, volte-se pro seu lugar. Seu tempo acabou. Distancie-se de mim, por favor.
by felipenove
criado por feLIpEnOVe
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