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Ele acena com um sorriso forjado. O público aplaude, mas sabe que é só mais um número ensaiado. A multidão se diverte com a dor que ele tenta esconder. Casa cheia para a apresentação de alguém que não tem vida própria, que não consegue entender. Esse brilho nos olhos é intencional. Faz parte de uma feição pintada, semblante artificial.
Ele não pode falar o que sabe sobre os bastidores. Nem o que ouviu dizer sobre quem o montou. Seus braços são puxados além do que suporta, a posição é a mesma a cada show. Suas pernas não o mantém de pé. Ele não sabe que está sendo vendido e nunca compreendeu o que na verdade é.
Ele se emociona com os risos sem perceber o maior de todos seus deslizes: Ele não vê que todos esperam por sua queda, um erro, falha técnica. Ele não tem ciência, consciência, nem inocência. Esse é seu espetáculo: Ser guiado por alguém que controla suas vontades. Alguém que fala por ele, que o machuca, que nunca lhe contou a verdade.
Ele não sabe que está perdendo tempo. Que nunca teve sonhos. Ele não sabe que nunca teve honra. Que sua vida é resumida a pequenos momentos. Ele não percebe que é descartável. Que é alguém abandonado em sua caixa aguardando mais uma apresentação. Ele não conhece nada além das cortinas. É apenas uma atração.
Ele não percebe que vai envelhecendo, que com o tempo vai se tornando comum. Que seus membros são pedaços apodrecidos. Ele não percebe suas amarras, suas fraquezas. Não sabe que é usado até perder o encanto. Não vê que é desprovido de qualquer destreza.
Ele nunca cresce. Nunca enriquece. Nunca viu a luz do dia. Nunca percebeu que não passa de uma marionete. Um ventríoloco, um boneco velho em um mundo de tietes.
Ele parece não ligar. Não sentir. Nem se preocupar. Se contenta com as câmeras, o estandarte. O fundo azul, achando ser uma obra de arte.
Ele não vê que ao invés de coração tem engrenagens. Que há cordas por todos os lados sufocando sua imagem, pressionando seu caráter.
Ele assiste a vida passar. Como um telespectador vê seu corpo se desintegrar, a casa esvaziar. Ele não percebe que um dia as cortinas vão se fechar. Que as luzes vão se apagar.
Ele não sabe que vai ser jogado fora por quem o usou. Que este nunca fora amigo, nunca teve amor. Que impediu a vida toda o encontro com seu Criador.
Ninguém se lembrará de seu esforço lá fora. Mais um evento que se acaba. Mais uma marionete frígida que vai-se embora. E em pensar que bastava enxergar suas cadeias, suas cordas. Pra ser alguém com vida, liberdade, conhecer os anjos, o Cristo e Sua Glória. Bastava enxergar suas cordas.
felipenove

criado por feLIpEnOVe
16:41:53