feLIpEnOVe

*nOVe = NOva VErsão: Música, carros, humanos e uma nova visão.

feLIpEnOVe

*nOVe = NOva VErsão: Música, carros, humanos e uma nova visão.
<  Junho 2008  >
S T Q Q S S D
            1
2 3 4 5 6 7 8
9 10 11 12 13 14 15
16 17 18 19 20 21 22
23 24 25 26 27 28 29
30
Buscar
Receba os posts
Terra Blog

Arquivo de: Junho 2008

30.06.08

O Cisco

Quando me olho no espelho vejo cisco nos seus olhos. Vejo com bastantes detalhes os sentimentos corruptos do seu coração. É tão prazeroso perceber seus erros. Lembrar a sua estória e culpar eternamente pelos seus atos. Eu faço de você refém do seu passado.
Eu meço os deslizes de todo mundo. Parece que todos são imundos. Tamanha imundícia faz desviar a atenção do meu porão. Eu pareço ileso à podridão, alguém que, orgulhosamente, caminha na contramão.
Assim, não sou igual aos outros. Eles mentem. Nada sentem, são dormentes. Inconseqüentes. Deprimentes. Eles têm cisco nos olhos. Enxergam tudo embaçado. São tapados.
Assim, não sou como eles. Eles enganam. Pensam em dinheiro. Falam dos outros o dia inteiro. Faltam com respeito. Não sei bem, mas parecem que usam máscaras. São cheios de trapaças. Ouvi dizer que até pecam. Oram, rezam. Eles têm cisco nos olhos. Coitados, condenados.
Tenho pena por não perceberem. Olhos lacrimejando por um corpo estranho. Saiba que ciscos causam inflamação na mente, nos olhos, no coração. Eles precisam de médicos. Oftalmologistas da alma. Precisam viver a vida com mais calma. Precisam ser melhores, baterem novos recordes. Eles têm ciscos nos olhos.
Não sei como não se envergonham. Não sei como ganham. Quando vão viver o que pregam? Quando vão aprender sobre o que negam? Os ciscos atrapalham a ler. A entender. Interfere na percepção. Parece prejudicar até a audição.
Definitivamente não sou como eles. Não tenho ciscos nos olhos. Só uma trave que parece me trazer superpoderes e me dá “super-visão”.

25.06.08

Por favor

- Por favor, aguarde sua vez e não ultrapasse a linha amarela assim como todos os outros.
- Não se lembras de mim?
- Não.
- Não é possível que não me reconheces! Sou um grande amigo seu.
- Aqui você é como todos os outros. Não há distinção. E na verdade, não me recordo a seu respeito.
- Como não? Já disse que somos íntimos, verdadeiros amigos.
- De qualquer forma aguarde sua vez.
- Não acredito que não se lembra de mim. Não se lembras do serviço que prestei, dos sonhos que tivemos, das lutas que enfrentei? Por você eu me sacrifiquei e não posso ser tratado como um qualquer. O que adiantou eu ter vivido pela fé?
- Porque eu me lembraria de você? Pelas obras de suas mãos? Pelo ser bem sucedido que foste? Ou pelo vazio que carregavas no coração?
- Pela minha fidelidade.
- Religiosidade, melhor dizer. Não me engane. Esse tempo todo você não pensou em ninguém além de você. Você foi frio, calculista e distante. Desculpe, não tenho como te reconhecer.
- Não acredito que perdi anos da minha vida.
- Mais um motivo pra não me recordar. Você esteve ao meu lado sempre pensando nas coisas que estava perdendo, e nunca nas que poderia ganhar.
- Não, eu estive ao seu lado por amor.
- Amor? Que amor é esse que nunca se compadeceu? Seu amor nunca me foi acessível. Nunca foi demonstrado, compartilhado. Assim como os seus dons, deve ter ficado o tempo todo enterrado.
- Dons enterrados? E os sinais que fiz? Eu fui usado.
- Usado como a mula de Balaão, pra que se cumprissem os desejos do meu coração.
- Mas eu me esforcei para ser parecido com você.
- Tudo bem, conheci suas obras, mas não vi dignidade nelas. Sei que tens nome de quem vive, mas, na verdade, és morto. Infelizmente não és frio, nem quente. És morno.
- E os frutos que gerei?
- Não pode a árvore boa dar maus frutos; nem a árvore má dar frutos bons. Toda árvore que não dá bons frutos deve ser cortada e lançada no fogo. Lembre-se da estória do trigo e do joio.
- Mas profetizei em Seu nome. Expulsei demônios, fiz maravilhas.
- Nunca o conheci. E nunca me conheceste. Não foste o filho que queria.
- Dei pães aos famintos...
- Não torne as coisas ainda piores. Inúmeras vezes te orientei. Mostrei meus caminhos, minhas vontades. Eu alertei, revelei toda a verdade. Você foi fogo estranho. Viveu como queria. Na contramão do plano que em você eu realizaria. Querido, não há mais tempo. Esse não é o momento. Não há espaço para arrependimento. É com lágrimas nos olhos que não deixo vir a mim, pois foi por você que morri. Queria que estivesse comigo na eternidade. Foi pra isso que jorrei sangue de verdade. Mas veja você mesmo: seu nome não está escrito no livro. Não tens passaporte, não é esse seu destino. Não é esse o seu caminho.
- Mas, Senhor...
- Por favor, volte-se pro seu lugar. Seu tempo acabou. Distancie-se de mim, por favor.

 

by felipenove 

23.06.08

A Saída

Quanto mais você consome, menos você tem pra viver
Quanta grana você gasta e tem alguém gastando você
Fuma até o talo enquanto a morte queima você
Quanto mais você consome, tudo você põe a perder


Quanto tempo você perde enquanto não há tempo a perder

Você defendeu o mundo e ele só condena você
Cheira a tua vida, e a vida cheira mal pra você
Quanto tempo você perde e o tempo corre contra você

Você não tem escolha, mas há uma saída
Já é hora de enxergar esta porta

Parece não ter chance, existe um escape
O caminho que te traz de volta a vida é Jesus

(Zé Bruno e Hamilton Gomes)

16.06.08

Achados e Perdidos

Era só um baú de achados e perdidos.
E lá estava ele. No local mais inadequado para alguém que se conhecia tão bem. Lá estava ele, à espera de alguém que não sabia quem.
Ele não se lembra bem como foi parar lá. Não imagina o tempo que irá durar. Ele, que conhecia o mundo, suas teorias e mistérios, se perde em meio a coisas esquecidas. Misturado a quinquilharias.
Certamente os donos sentiram falta. Alguns voltavam. Outros substituíam. Coisas que o tempo e a poeira consumiam.
Os valores se equivalem em um amontoado de objetos que hoje pra nada servem. Que não servem, inclusive, a ninguém. Objetos que custaram caro, mas que nem donos têm.
Ele não sabe quando se perdeu, quando foi recolhido. Nem quando será achado, ou se será, um dia, devolvido.
Ele se perdeu quando deixou de servir. Quando esqueceu sua função. Quando questionou o porquê de um Criador, de um coração. Ele se perdeu quando o mundo se despiu. Perdeu-se em meio às luzes, quando a chuva passou, e não viu.
Como criação de Gepeto: Objeto com vida se rebela por um desejo.
Perdido assim não tem como sair. Não faz suas vontades, não tem aonde ir. Apodrece-se com o tempo, prisioneiro. Ausência de ar, desespero.
Uma pena que alguém tão sonhado acabe em um guichê. Enferrujando em um baú, abandonado sem perceber. Uma pena que alguém tão entendido precise ficar olhando pelas frestas esperando alguém voltar e reconhecer. É triste se sujeitar a uma seleção em um balcão de uma repartição.
Quem sabe não aparece o Filho do Dono? Aquele que esteve com o seu mentor, te viu ser criado, recolheu seus cacos? Dizem que Ele virá para os perdidos, os que podem e querem ser achados. Tire a poeira de seus trapos, alguém vem vindo ali:

 
“Porque o Filho do homem veio salvar o que se tinha perdido. Mateus 18:11”

felipenove


10.06.08

Além das Cortinas

Ele acena com um sorriso forjado. O público aplaude, mas sabe que é só mais um número ensaiado. A multidão se diverte com a dor que ele tenta esconder. Casa cheia para a apresentação de alguém que não tem vida própria, que não consegue entender. Esse brilho nos olhos é intencional. Faz parte de uma feição pintada, semblante artificial.
Ele não pode falar o que sabe sobre os bastidores. Nem o que ouviu dizer sobre quem o montou. Seus braços são puxados além do que suporta, a posição é a mesma a cada show. Suas pernas não o mantém de pé. Ele não sabe que está sendo vendido e nunca compreendeu o que na verdade é.
Ele se emociona com os risos sem perceber o maior de todos seus deslizes: Ele não vê que todos esperam por sua queda, um erro, falha técnica. Ele não tem ciência, consciência, nem inocência. Esse é seu espetáculo: Ser guiado por alguém que controla suas vontades. Alguém que fala por ele, que o machuca, que nunca lhe contou a verdade.
Ele não sabe que está perdendo tempo. Que nunca teve sonhos. Ele não sabe que nunca teve honra. Que sua vida é resumida a pequenos momentos. Ele não percebe que é descartável. Que é alguém abandonado em sua caixa aguardando mais uma apresentação. Ele não conhece nada além das cortinas. É apenas uma atração.
Ele não percebe que vai envelhecendo, que com o tempo vai se tornando comum. Que seus membros são pedaços apodrecidos. Ele não percebe suas amarras, suas fraquezas. Não sabe que é usado até perder o encanto. Não vê que é desprovido de qualquer destreza.
Ele nunca cresce. Nunca enriquece. Nunca viu a luz do dia. Nunca percebeu que não passa de uma marionete. Um ventríoloco, um boneco velho em um mundo de tietes.
Ele parece não ligar. Não sentir. Nem se preocupar. Se contenta com as câmeras, o estandarte. O fundo azul, achando ser uma obra de arte.
Ele não vê que ao invés de coração tem engrenagens. Que há cordas por todos os lados sufocando sua imagem, pressionando seu caráter.
Ele assiste a vida passar. Como um telespectador vê seu corpo se desintegrar, a casa esvaziar. Ele não percebe que um dia as cortinas vão se fechar. Que as luzes vão se apagar.
Ele não sabe que vai ser jogado fora por quem o usou. Que este nunca fora amigo, nunca teve amor. Que impediu a vida toda o encontro com seu Criador.
Ninguém se lembrará de seu esforço lá fora. Mais um evento que se acaba. Mais uma marionete frígida que vai-se embora. E em pensar que bastava enxergar suas cadeias, suas cordas. Pra ser alguém com vida, liberdade, conhecer os anjos, o Cristo e Sua Glória. Bastava enxergar suas cordas.

felipenove