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Trancaram-se os portões. Fecharam-se as cortinas. A platéia se foi. É mais um show que se encerra. Não há mais fila de espera. Não há gritos, vaias ou risos.
É a enésima vez que realizo o mesmo número. As luzes se apagam. Sobram eu, o estandarte e as cadeiras vazias. O palco agora não é mais o centro das atenções. E não há flash, pessoas ou expectativa por trás da cortina.
Cabe a mim a sensação de que foi um belíssimo espetáculo. Provoquei emoções com meu nariz de palhaço. Vi surpresa nos olhos com meus passos. E enxerguei satisfação no rosto de cada um. Fiquei registrado nas fotos com as crianças. Ouvi muitas gargalhadas. Nem perceberam que pisei em falso. Que errei a pirueta, esqueci a fala.
Nem sei se vão se lembrar desse dia. Acredito que parte das frases já foi esquecida. Mas não devo me preocupar. É hora de limpar o rosto, desfazer o personagem, pendurar a fantasia.
Penso em novos lugares. Nas pessoas que estarão na fila de entrada. Na dança que posso inventar até lá. Coloco a mente para pensar. Imagino quanta gente estranha aqui vai entrar. E vai olhar o picadeiro sem pestanejar. E quantos vão achar tudo ainda mais estranho.
É outra oportunidade. É a chance de participar da vida destes também. Emocionar as pessoas que não conheço e que nunca me viram por trás da pintura. Dizer algumas verdades, mesmo que sutis.
Tenho a esperança de mudar algo. Principalmente em mim. Mas a idéia de fazê-los trocar o foco é confortante. Nem que seja por poucos instantes. Os pais se esquecem dos problemas. E os filhos se esquecem de crescer. Todos saem prometendo algo. E se perdem em meio ao algodão doce e a tudo o que planejaram ser.
Quase me perco nos pensamentos. E quando me dou conta já é tempo de vestir minha identidade mais conhecida. As luzes são acesas novamente. Ouço o som do público. E vejo o brilho nos olhos novamente. Escondido, vejo a fila aumentando. E percebo os adultos disfarçando. Disfarçando que já conhecem os truques. Que não serão surpreendidos. Que não se sensibilizam.
O coração bate forte. Sou mesmo uma pessoa de sorte. É interessante como cada passo repetido é um novo espetáculo, e que tudo se reinicia após os aplausos. Cada dia uma nova apresentação. Novas idéias, palavras, gestos, risos e lágrimas. É por essas e outras que devo continuar.

criado por feLIpEnOVe
18:59:53